terça-feira, 7 de julho de 2015

Dez nomes fundamentais para a História do Brasil - Guia do Estudante

 


Dez nomes fundamentais para a História do Brasil

As pessoas que fizeram o país em que vivemos hoje, de acordo com a escolha do público e de especialistas

TEXTO Fabio Marton | ILUSTRAÇÕES André Bergamin
A História é feita de pessoas. Faz toda a diferença, por
exemplo, que tenha sido o ambicioso e ideologicamente flexível Getúlio
Vargas a tornar-se presidente provisório na Revolução de 1930 – e não um
dos tenentes radicais que o cercavam. O país também não seria o mesmo
sem as qualidades pessoais do intelectualizado e tolerante dom Pedro II,
que estabeleceu um exemplo de liberdade para as gerações seguintes. E o
próprio Pedro não seria quem era sem seu primeiro tutor, o
cientista-filósofo José Bonifácio de Andrada e Silva. Esses grandes
brasileiros não apenas tiveram a chance de decidir o futuro do país,
como encarnam o espírito e as contradições de sua época.

AVENTURAS
NA HISTÓRIA pediu a especialistas que indicassem os personagens mais
importantes do país, em paralelo com uma pesquisa entre os leitores, com
participação de 4 454 votantes. Os dez favoritos dos leitores contam
como um voto a mais, e os empates são ordenados pela preferência do
público. O resultado revelou algumas surpresas: Joaquim Nabuco e José
Bonifácio, ignorados pelos leitores, foram, de acordo com os
especialistas, mais importantes que Juscelino Kubitschek. JK, por seu
lado, surpreendentemente, superou Getúlio Vargas na memória popular,
atingindo o maior número de votos. Quase um em cada dois leitores
apontou o criador de Brasília como o maior brasileiro de todos os
tempos.

Como qualquer lista, esta tem dolorosas omissões. Figuras
importantíssimas, como Rui Barbosa, dom João VI e Sérgio Buarque de
Holanda ficaram de fora por um voto. A Princesa Isabel, que figuraria
como a única mulher da lista, foi uma das preferidas do público, mas não
teve voto entre os especialistas. Nem o primeiro herói brasileiro,
Tiradentes, figurou entre os mais votados.

OS VOTOS DOS ESPECIALISTAS


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OS VOTOS DOS LEITORES


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GETÚLIO VARGAS – Herança onipresente

As contradições na vida do maior personagem da História do Brasil

CURRÍCULO
Nome: Getúlio Dornelles Vargas
Nascimento: São Borja (RS), 19 de abril de 1882
Morte: Rio de Janeiro (RJ), 24 de agosto de 1954
Ocupação: Presidente da República
Nenhum
brasileiro poderia ser mais polêmico. E, ao mesmo tempo, não há dúvidas
que não deveria ser outro na primeira posição desta lista. Getúlio
Vargas foi um ditador – e um presidente democrático – que dividiu o
país. É possível amar ou detestar seu legado. Mas é impossível negar que
ele está em todo lugar. A Consolidação das Leis do Trabalho, a
legislação sindical, a Petrobras, a Ordem dos Advogados do Brasil, e
mesmo coisas mais abstratas, como um certo nacionalismo excludente, que
encara adversários como “entreguistas”, inimigos da nação, todas são
heranças da Era Vargas, que, 80 anos depois, ainda não é objeto de
consenso entre pesquisadores.

A própria natureza política de
Vargas é difícil de avaliar. A Revolução de 1930, na qual ascendeu ao
poder como presidente provisório, prometia industrializar o Brasil e
corrigir os defeitos antidemocráticos da República Velha. Em 1932, o
voto tornou-se secreto, obrigatório e passou a incluir as mulheres, de
forma a acabar com o “voto do cabresto”, no qual líderes locais
pressionavam os eleitores a elegerem seus candidatos, já que era
possível saber quem votava em quem. A demora em entregar uma nova
Constituição e o fato de a Revolução ter deposto um paulista, Washington
Luís, levaram São Paulo a uma guerra civil, a Revolução
Constitucionalista de 1932. O estado foi derrotado, mas a Constituição
saiu, por meio de uma assembleia eleita de acordo com novas leis, em
1934.

Eleito indiretamente no mesmo ano, Vargas detestou o
resultado da Constituição, para ele oneroso demais para o orçamento
público e liberal no combate à subversão – em 1935, houve um levante
comunista. Antes que seu mandato acabasse, em 1937, ele deu um
autogolpe, impondo uma nova Carta, que proibia greves, acabava com os
governos estaduais e permitia ao governo demitir funcionários públicos,
baseada na Constituição da Polônia, de inspiração fascista.

O
Brasil desenvolveu indústrias de base, como a Companhia Siderúrgica
Nacional, de 1941, e a Vale do Rio Doce, no ano seguinte. Também deu uma
séria guinada para o fascismo. Foi estabelecido um culto à
personalidade do ditador, e as manifestações culturais foram enquadradas
numa perspectiva nacionalista e construtiva. Em 1942, esse país
autoritário entraria em guerra contra o fascismo, tornando-se o único da
América Latina a enviar tropas à Europa – e vencer os alemães, diga-se.

A
contradição em lutar por democracia com uma ditadura em casa não passou
despercebida. Ao fim da guerra, Vargas foi deposto. Mas sua
popularidade era imensa, e ele voltou como presidente eleito em 1951. O
Getúlio democrático governou um país sectário. A imprensa e a classe
média estavam contra ele. A esquerda, que Vargas havia perseguido,
passou a apoiá-lo. Em tempos de Guerra Fria, essa aliança apenas exaltou
os ânimos. Em meio a uma furiosa polêmica causada por uma tentativa de
assassinato ao jornalista opositor Carlos Lacerda por um membro da
guarda pessoal do presidente, Vargas escreveu seu famoso “Saio da vida
para entrar para a História” e deu um tiro no coração. Seu fantasma
assombraria o país para sempre. Seriam seus aliados ou opositores que
decidiriam o futuro do Brasil pelas próximas gerações.

O BRASIL DE GETÚLIOAno: 1940
População: 41 263 315
População rural: 68%
Taxa de analfabetismo: 56,1%
Regime político: Estado Novo (ditadura civil)
COMO SERIA SEM ELEProvavelmente
o país seria ainda mais agrário. As indústrias petrolífera, de
mineração e siderúrgica talvez não tivessem sido fundadas, ou seriam
multinacionais. Por outro lado, com ânimos políticos menos exaltados, o
país poderia ter escapado de duas ditaduras.
DOM PEDRO II – Imperador cidadão

O monarca que gostaria de ser presidente

CURRÍCULO
Nome: Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga
Nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 2 de dezembro de 1825
Morte: Paris (França), 5 de dezembro de 1891
Ocupação: Imperador do Brasil
Ele
reinou por 58 anos, no mais longo período de estabilidade política do
país. E isso em si já é uma conquista: quando, em 23 de julho de 1840,
foi declarado maior de idade, aos 14 anos, e assumiu o trono, o Brasil
enfrentava três revoltas separatistas: a Cabanagem, no Pará, a Balaiada,
no Maranhão, e a Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Além dos conflitos
civis, Pedro também venceria três guerras externas – a do Prata
(1851-1852), do Uruguai (1864) e do Paraguai (1864-1870).

Apesar
do histórico militar impecável, não é pelas glórias da caserna que o
imperador ficou conhecido. Pedro foi, como diz o historiador Jean Marcel
Carvalho França, “um dos melhores governantes que teve o Brasil, quiçá o
melhor”. Enquanto os vizinhos saltavam de caudilho em caudilho, o
Brasil contava com plena liberdade de pensamento e direitos
constitucionais, ao mesmo tempo que ferrovias e as primeiras indústrias
se instalavam no país. As eleições podiam ser falhas e manipuladas
localmente por liberais e conservadores, mas a existência dos partidos
era garantida.

O imperador jamais abusou de seus poderes. E a
sociedade aproveitava a liberdade. A imprensa fazia críticas tão ferozes
que até viajantes europeus as consideravam excessivas. A reação do
monarca intelectual deveria servir de exemplo para políticos brasileiros
de hoje: ele mesmo pegava na pena e escrevia réplicas, publicadas sob
pseudônimo.

A liberdade política convivia com a grande mácula da
escravidão. “Pedro consubstancia, como Vargas, as contradições do
Brasil. Soberano culto, moderado, antenado com a ciência, foi também o
monarca da escravidão”, diz Pedro Paulo Funari, da Unicamp. As
contradições eram grandes. Pedro era liberal convicto, até demais. Em
1862, registrou em seu diário: “Nasci para consagrar-me às letras e às
ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da
República ou ministro à de imperador”. A seu próprio exemplo, os
liberais brasileiros eram, em maioria, republicanos. Quem apoiava a
monarquia era o Partido Conservador, dos proprietários de escravos.
Assim, um imperador liberal, que repudiava a escravidão, era sustentado
por quem vivia da instituição.

Pedro buscou uma abolição gradual. A
Lei do Ventre Livre, de 1871, evitava o nascimento de novos escravos. E
a Lei dos Sexagenários, de 1885, libertou os mais velhos. Elas costumam
ser subestimadas, mas a população de escravos caiu de 1,6 milhão em
1872 para 720 mil em 1887. Assinada por sua filha Isabel, a Lei Áurea,
sem indenização aos proprietários, fez com que os conservadores
retirassem o apoio à monarquia.

Com ninguém interessado em que a
caseira e carola princesa Isabel fosse imperatriz, em 15 de novembro de
1889 um golpe militar acabou com o regime – e com todas as liberdades
civis. O imperador republicano não fez nada para manter seu trono. Ele
se mostrou mais ofendido com o exílio do que com a queda da monarquia.
Longe do país, em depressão, morreu o “governante que amava o Brasil
acima de tudo e que dedicou sua vida a tentar fazer de sua pátria um
país melhor”, nas palavras da historiadora Isabel Lustosa. O Brasil
guardaria os exemplos de tolerância e liberdade plantados em seu
governo.

O BRASIL DE PEDRO IIAno: 1872
População: 9 930 478
População rural: 90%
Taxa de analfabetIsmo: 82,3%
Regime político: monarquia constitucional
COMO SERIA SEM ELEO
país provavelmente seria dividido em pequenas repúblicas dominadas por
caudilhos, que travariam guerras entre si. Ainda que o Brasil tenha
passado por ditaduras, graças ao imperador democracia e liberdade de
expressão têm uma longa tradição no país.
DOM PEDRO I – O herói de dois países

O monarca corajoso que salvou o Brasil e Portugal

CURRÍCULO
Nome: Pedro
de Alcântara Francisco Antonio João Carlos Xavier de Paula Miguel
Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e
Bourbon
Nascimento: Queluz (Portugal), 12 de outubro de 1798
Morte: Queluz, 24 de setembro de 1834
Ocupação: Imperador e rei

O
primeiro imperador do Brasil fazia o que queria. Em 9 de janeiro de
1822, por causa de suas amizades e do amor ao lugar no qual havia
passado a maior parte da vida, decidiu não embarcar para Portugal, onde
nasceu e era o primeiro na linha de sucessão. Recusando um trono
europeu, preferiu tornar-se o único monarca da América. Aliás, recusou
dois tronos: a Grécia, que conquistou a independência do Império Otomano
em 1820, havia proposto a Portugal que lhes enviasse o herdeiro para
fundar uma nova monarquia.É piada velha no Brasil lembrar um
detalhe patético – e irrelevante – da independência, que o imperador
passava mal dos intestinos. Mas ninguém pode negar o intenso teor nas
palavras “Independência ou morte”. E morte houve: a pouco falada Guerra
de Independência se estenderia até 1824, deixando 1 800 baixas. É
relativamente pouco diante do que enfrentaram os vizinhos hispânicos.
Portugal não empenhou todas suas forças em impedir que alguém de sua
casa imperial fosse rei do novo país. Pedro, assim, se tornou o
“artífice da forma conciliatória de nossa independência”, como afirma o
professor Lincoln Secco, da USP.

O imperador também era radical
nas ideias. Nascido após a Revolução Francesa, no que era uma das
últimas monarquias absolutistas da Europa, tornou-se adepto do
liberalismo – ideologia então revolucionária, e, vale lembrar, esposada
pelo maior inimigo de Portugal, a França de Napoleão Bonaparte. Foi por
esses ideais que, afinal, havia sido criado no Brasil, após a fuga da
corte portuguesa diante das tropas napoleônicas, em 1808. Ele poderia
tentar, como seus ancestrais, governar como monarca absoluto – e não
faltavam brasileiros que apoiassem a ideia. Em vez disso, fez questão
que o Brasil tivesse uma Constituição, em grande parte inspirada na
Carta da França revolucionária. A Constituição de 1824 foi outorgada
depois que ele cassou a Assembleia Constituinte, que se recusou a dar
poder político ao imperador. A Assembleia estabelecia uma separação de
poderes e um governo indireto do imperador, por meio de ministros
apontados por ele.

A impulsividade de Pedro I acabaria levando à
sua queda. No ano da independência, havia se tornado amante de uma
fidalga paulista, a divorciada Domitila de Castro. Ele não fez questão
de ocultar o romance – dando à amante o título de Marquesa de Santos, um
dos mais altos da nobreza. Isso chocou visitantes estrangeiros e
alienou sua esposa, a austríaca Maria Leopoldina. Amada pelos
brasileiros, a imperatriz morreu em 1826, sob suspeita (falsa) de
violência doméstica. Os políticos o viam como um personagem autoritário e
lançavam suspeitas sobre seus laços com Portugal. O libertador do
Brasil abdicou do trono em 1831.

Pedro foi a Portugal para lutar
contra seu irmão, dom Miguel IV, que havia tomado o poder em 1828, num
golpe absolutista. Com a vitória de Pedro, garantiu-se a liberdade
constitucional em Portugal. Para a historiadora Isabel Lustosa, “Pedro I
foi personagem fundamental para o processo de implantação do
liberalismo político no Brasil e em Portugal”. Atacado pela tuberculose,
morreu como herói de dois países no mesmo quarto onde nasceu 35 anos
antes.

O BRASIL DE PEDRO IAno: 1825
População: 5 000 000 (estimativa)
População rural: sem dados, mais de 90%
Taxa de analfabetismo: sem dados, mais de 90%
Regime político: monarquia constitucional
COMO SERIA SEM ELEA
independência possivelmente aconteceria por meio de uma guerra bem mais
sangrenta, dando origem a uma ou mais repúblicas. Seriam países
autoritários: ou ditaduras explícitas, como no Paraguai, ou repúblicas
dominadas por caudilhos, como na Argentina.
JOSÉ BONIFÁCIO – O pai da pátria

O cientista e intelectual que moldou o Brasil independente

CURRÍCULO
Nome: José Bonifácio de Andrada e Silva
Nascimento: Santos (SP), 13 de junho de 1763
Morte: Niterói (RJ), 6 de abril de 1838
Ocupação: Político e cientista

À
primeira vista, pode parecer uma imensa “zebra” que um homem que nunca
governou o país nem deixou uma obra extensa esteja em posição tão alta
na lista. Mas os historiadores têm razão. José Bonifácio é o nosso “pai
da pátria”, como lembra Mary del Priore. Ele representa para o Brasil o
que Benjamin Franklin é para os Estados Unidos: um filósofo-cientista
que conseguiu moldar um novo país às suas ideias. “Além de ter
antecipado temas importantes para o destino do Brasil, como a abolição, a
independência econômica, a organização da Marinha, a preservação da
natureza e a redistribuição de terras, foi o brasileiro mais inteligente
de seu tempo”, diz a historiadora Isabel Lustosa.Na
independência, Bonifácio tinha quase 60 anos. Vinha de uma longa
carreira, a maior parte dela na Europa. Estudou direito e filosofia
natural na Universidade de Coimbra, onde entrou em 1783, e tornou-se um
dos mais respeitados cientistas do Império Português, tratando
principalmente de química e mineralogia. Em 1808, quando as tropas de
Napoleão invadiram Portugal, ele não veio ao Brasil junto com a corte
portuguesa. Ficou lá para defender o país que considerava seu: tornou-se
comandante do Batalhão Acadêmico, uma milícia formada por estudantes e
professores. A iniciativa aparentemente quixotesca teve alguns sucessos,
como a tomada do Forte de Santa Catarina das forças napoleônicas, no
primeiro ano da guerra. Os franceses nunca conseguiriam dominar
totalmente o país.

Assim, foi como um patriota português que José
Bonifácio voltou ao Brasil em 1819. Com a perspicácia de cientista,
começou a desvelar vários planos para o país: o fim da escravidão, a
criação de escolas públicas, a preservação ambiental e a reforma
agrária, confiscando propriedades improdutivas. Ele só se tornou adepto
da independência na última hora, defendendo a representatividade
igualitária dos brasileiros nas cortes de Lisboa – mas as cada vez mais
claras intenções portuguesas em tornar o Brasil novamente colônia o
fizeram aderir ao movimento. Quando dom Pedro I decidiu ficar no Brasil,
ele chamou José Bonifácio para ocupar o cargo de ministro de Negócios
do Império – jamais um brasileiro havia ocupado posto tão alto. No ano
seguinte, com seu irmão Martim Francisco, foi um dos membros da
Assembleia Constituinte, liderando o bloco dos liberais. Com a
Assembleia propondo tornar o imperador uma figura simbólica, sem poder
nenhum, dom Pedro I a dissolveu em 12 de novembro de 1823, outorgando
uma Constituição liberal, mas que mantinha o imperador como chefe do
Poder Executivo. Perseguido, o velho pai da pátria foi exilado para a
França. Mas esse não seria seu fim.

Em 1828, os irmãos Andrada
puderam voltar ao Brasil. Dom Pedro I enfrentava uma crise de
popularidade aqui e problemas externos em Portugal. Quando abdicou da
coroa e foi para a Europa, em 1831, deixou a José Bonifácio o cargo de
tutor oficial de seus filhos. Assim, a formação intelectual de dom Pedro
II, um dos pontos mais notáveis do monarca, deve seu início a José
Bonifácio. O “lider ilustrado da independência do Brasil”, como define o
professor Lincoln Secco, da USP, merece ser chamado de “pai da pátria”.

O BRASIL DE BONIFÁCIOAno: 1820
População: 4 717 000 (estimativa)
População rural: sem dados, mais de 90%
Taxa de analfabetismo: sem dados, mais de 90%
Regime político: colônia portuguesa
COMO SERIA SEM ELEA
independência poderia ter naufragado, ou talvez o regime resultante
fosse uma tirânica monarquia absolutista, nascida da necessidade de unir
o país à força. Ainda que ele não tenha conseguido banir a escravidão,
ter um pai da pátria como abolicionista ajudou a causa.
JUSCELINO KUBITSCHEK – Senhor simpatia

Presidente deixou sua marca com a construção de Brasília

CURRÍCULO
Nome: Juscelino Kubitschek de Oliveira
Nascimento: Diamantina (MG), 12 de setembro de 1902
Morte: Resende (RJ), 22 de agosto de 1976
Ocupação: Presidente do Brasil

Na
opinião dos leitores, não resta dúvida: JK é o número 1. É testamento
vivo de seu carisma que um presidente que assumiu o poder há quase 60
anos, cuja maior realização é uma cidade que não está exatamente em alta
conta no imaginário popular, e que deixou o país em situação complicada
para seus sucessores, consiga se manter como o mais amado da História
do Brasil. Em 2001, numa pesquisa similar entre seus leitores, ele foi
eleito pela revista Época como o “brasileiro do século”.Boêmio,
amante das coisas boas da vida e famoso por seu gosto por dançar,
Juscelino assumiu a cadeira presidencial no Palácio do Catete, no Rio de
Janeiro, em 31 de janeiro de 1956. Já tinha fama de “grande
modernizador, responsável pela busca do futuro, em detrimento do
passado”, como define Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Sua promessa de
campanha era fazer o Brasil avançar “50 anos em 5”, e a principal peça
desse plano era a nova capital. A ideia vinha desde tempos coloniais,
por considerações estratégicas – evitar um ataque naval à capital – e
também como forma de levar parte da população para o centro do país,
praticamente desabitado.

Quando JK deixou a cadeira, em 1961, sem
possibilidade de reeleição pelas leis da época, o fez do Palácio do
Planalto, em Brasília. Deixava também uma “herança maldita” a seus
sucessores, na forma de dívidas acumuladas na construção da capital e
uma inflação galopante.

A outra parte de seu plano era trazer a
modernidade capitalista para o Brasil, construindo obras para resolver
os gargalos de infraestrutura – o famoso “custo Brasil” que ainda hoje
aparece no noticiário econômico. Isso consistia na criação de
hidroelétricas, como o complexo de Furnas, e inauguração de estradas,
como a Fernão Dias, de São Paulo a Belo Horizonte. As obras se davam em
paralelo à abertura do país para o capital estrangeiro, com a chegada de
montadoras de automóveis, além do corte de impostos para importações de
máquinas. As novas oportunidades deram início ao ciclo de migração do
Nordeste para os polos industriais do sul do país.

O Brasil
avançou menos de 50 anos, mas a mística de JK tem mais a ver com seu
tempo do que com suas realizações. JK assumiu após o suicídio de Getúlio
Vargas, enfrentou tentativas de impedir sua posse e conseguiu governar
por um período de paz e liberdade. O Brasil ganhou sua primeira Copa do
Mundo em 1958 e a Bossa Nova fez sucesso no exterior. Brasília era uma
cidade de ficção científica, inteiramente planejada. Parecia a quem
viveu então que finalmente se cumpriria a profecia do escritor alemão
Stefan Zweig, que “o Brasil é o país do futuro”. A era JK ficou
conhecida como os “Anos Dourados” – ainda mais pelo contraste com o que
viria a seguir, uma crise institucional que só terminou no golpe de
1964. Durante a ditadura, em 1966 ele se aliou ao ex-adversário Carlos
Lacerda e ao presidente deposto João Goulart, que havia sido
vicepresidente em seu governo, na Frente Ampla pela Redemocratização.
Morreu em um acidente na Via Dutra em 1976, um fato que ainda é colocado
em dúvida por muita gente. A Comissão da Verdade da Câmara Municipal de
São Paulo concluiu que sua morte foi uma conspiração de militares.

O BRASIL DE JKAno: 1960
População: 70 070 457
População rural: 52%
Taxa de analfabetismo: 39,6%
Regime político: democracia (sem voto de analfabetos)
COMO SERIA SEM ELEO
Rio de Janeiro continuaria a ser a capital. A fronteira agrícola não
iria se expandir para o Centro-Oeste. A migração nordestina para as
regiões ao sul possivelmente não teria ocorrido, ou seria menos intensa.
Ninguém chamaria a década de 50 de “anos dourados”.
JOAQUIM NABUCO – A consciência da elite brasileira

Nascido privilegiado, enfrentou a escravidão e a Igreja

CURRÍCULO
Nome: Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo
Nascimento: Recife (PE), 19 de agosto de 1849
Morte: Washington (EUA), 17 de janeiro de 1910
Ocupação: Abolicionista, diplomata, político, jornalista

Ilustre
desconhecido para o leitor – ficou na 27ª colocação na votação pela
internet, atrás de Pelé e Ayrton Senna –, Joaquim Nabuco é um personagem
que precisa de introdução. Nascido em uma geração de talentos
brilhantes, a mesma de Machado de Assis e Rui Barbosa, foi o maior
pensador brasileiro de seu tempo. “Em um país carente do gênero, foi um
intelectual e um político de primeira grandeza, que deu uma contribuição
relevante para fazer avançar a ‘civilização brasileira’”, afirma Jean
Marcel Carvalho França, da Unesp.A principal herança de Nabuco
foi como figura central da campanha abolicionista. “Herdeiro da nobreza
do Império, sobre a qual escreveu obra notável, foi ativo militante da
causa abolicionista, autor da obra mais consistente de seu tempo sobre o
assunto”, diz Isabel Lustosa. O escritor não poupava palavras: “A
história da escravidão africana na América é um abismo de degradação e
miséria que se não pode sondar”, escreveu. Mas a questão foi sondada, e
por isso sabe-se hoje a profundidade do problema. Durante o século 20,
sociólogos como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda deixaram
claro o quanto a instituição cravou uma vergonhosa marca nos costumes e
cultura do país, visível ainda hoje.

A biografia do intelectual é,
de certa forma, um contraponto à de Machado de Assis, com o qual travou
uma longa amizade. Se o último nasceu pobre e mulato, e nunca conseguiu
estudar, o primeiro era um fruto do privilégio. Filho do senador
pernambucano José Tomás Nabuco de Araújo, formou-se em direito e sua
primeira ação política foi defender um escravo acusado de assassinar o
senhor, em 1869. Em 1876, conseguiu um cargo como adido da legação
brasileira nos EUA, vivendo em Nova York e Washington. Dois anos depois,
foi eleito deputado por Pernambuco pelo Partido Liberal. Defendeu não
apenas a abolição, mas também os direitos dos indígenas, posicionando-se
contra um projeto de exploração do Rio Xingu. Em 1880, fundou a
Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, a ponta de lança em seu
combate.

Foi ousadia demais mesmo para os liberais, vários dos
quais eram senhores de terras. Sem apoio do partido, não conseguiu se
reeleger. Assim, em 1882, iniciou carreira como jornalista, chegando a
correspondente em Londres. Escreveu sobre tudo, tornando-se uma espécie
de voz da consciência da elite brasileira. Isso inclui uma segunda
causa, menos lembrada: a laicidade do Estado. O intelectual chegava a
soar anticlerical ao tratar da influência do catolicismo no Estado – que
ainda o tinha como religião oficial. Nabuco criticava a hipocrisia dos
padres em relação à escravidão: “A Igreja Católica, apesar do seu imenso
poderio em um país ainda em grande parte fanatizado por ela, nunca
elevou no Brasil a voz em favor da emancipação”. Foi por influência dele
e de outros intelectuais que a República abandonou a ideia de religião
oficial.

Nabuco defendeu até o fim a monarquia constitucional.
Convidado a participar da Assembleia Nacional Constituinte de 1891,
recusou a oferta, lançando o manifesto Por Que Sou Monarquista.
A briga com a República acabou em 1900, quando aceitou um cargo na
Inglaterra. Ainda seria embaixador em Washington, em 1905, e presidiria a
III Conferência Pan-Americana, no ano seguinte.

O BRASIL DE NABUCOAno: 1872
População: 9 930 478
População rural: 90%
Taxa de analfabetismo: 82,3%
Regime político: monarquia constitucional
COMO SERIA SEM ELENa
ausência de uma figura de alto calibre para lhe dar força, o movimento
abolicionista poderia ter continuado a ser visto como rebeldia juvenil,
atrasando a abolição. A república talvez continuasse a manter o
catolicismo como religião oficial. Em resumo, o Brasil seria mais
atrasado.
MACHADO DE ASSIS – Amargura nos trópicos

O maior autor brasileiro contrasta com todos os estereótipos do país

CURRÍCULO
Nome: Joaquim Maria Machado de Assis
Nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 21 de junho de 1839
Morte: Rio de Janeiro (RJ), 29 de setembro de 1908
Ocupação: Escritor, fundador da Academia Brasileira de Letras

Poucos
personagens destoam mais daquilo que se costuma popularmente associar
ao Brasil que o maior autor da literatura nacional. Em pleno Rio de
Janeiro tropical, suas histórias revelam obsessões por morte, melancolia
e traição. E, ao mesmo tempo, ninguém podia ser mais representativo:
nascido de um pintor de paredes mulato e uma lavadeira portuguesa,
tornou-se órfão de mãe aos 10 anos de idade. Sem nunca pisar na sala de
aula de uma universidade, Machado de Assis teve de inventar a si mesmo.E
que colossal construção foi essa: na definição de Jean Marcel Carvalho
França, da Unesp, Machado foi “um dos poucos escritores brasileiros que
podem, sem qualquer apelo ao nacionalismo tolo que atualmente contamina o
país, ser incluído no rol dos grandes literatos do Ocidente”. O crítico
literário americano Harold Bloom, um dos mais respeitados do mundo, o
colocou entre os 100 maiores autores de todos os tempos, ao lado de
figuras como Homero, Shakespeare, Cervantes e Dante Alighieri. Bloom
afirmou que o brasileiro foi o “maior autor negro da História” – e o
coloca acima de clássicos como o francês Alexandre Dumas e o russo
Alexander Pushkin.

Relacionado ao fato de ser negro está uma das
maiores controvérsias de sua carreira. Ele enfrentou o preconceito da
família de sua esposa, a portuguesa Carolina Novais, que foi rejeitada
pelos pais por ter-se casado com o mestiço. Grande mestre da ironia,
Machado nunca usava de linguagem direta para expressar suas opiniões.
Por isso, foi acusado por contemporâneos, como José do Patrocínio e Lima
Barreto, de ficar em cima do muro sobre a maior questão de seu tempo, a
escravidão. Seus livros abordam o tema do ponto de vista do dominador,
com personagens centrais brancos e privilegiados. Em décadas mais
recentes, críticos como Roberto Schwarz têm tentado tirar do autor essa
mácula de “embranquecido”, ressaltando quanto sua crítica da escravidão e
relações raciais pode ser lida nas entrelinhas. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas
(1880), por exemplo, o personagem principal aparece recordando com
saudades como fazia um escravo de cavalinho na infância – e esse mesmo
escravo, depois alforriado, torna-se proprietário de escravos, uma
amarga ironia sobre a condição dos negros. Em uma obra escrita depois da
abolição, o conto Pai Contra Mãe, de 1906, o autor foi mais explícito: um capitão do mato sem condições de sustentar o filho captura uma escrava fugida grávida.

Em
todo caso, é difícil cobrar engajamento político de um autor que, como
diz Mary del Priore, “começa a vida progressista e liberal e termina num
paternalismo conservador”. A revolução, em Machado de Assis, ficava
para a literatura, com seu livro mais radical, Memórias Póstumas,
tendo passagens que soam experimentais ainda hoje. Ele recusava as
novidades ideológicas da época, como o socialismo, o darwinismo social e
o positivismo. Em um país que tentou se refundar por três vezes, por
meio de golpes que levaram ao chão as instituições, não deixa de ser
salutar haver essa voz contrastante. Machado de Assis temperou os
açucarados excessos tropicais brasileiros com uma bem-vinda dose de
amargura.

O BRASIL DE MACHADOAno: 1872
População: 9 930 478
População rural: 90%
Taxa de analfabetismo: 82,3%
Regime político: monarquia constitucional
COMO SERIA SEM ELEA
literatura brasileira manteria um certo complexo de vira-lata, sem
nenhum autor de alcance mundial. O fato de o maior autor do Brasil não
ter sido branco sempre foi um entrave para os adeptos de teorias raciais
por aqui – sem ele, o país seria ao menos um tanto mais racista.
OSCAR NIEMEYER – O arquiteto do futuro

Brasileiro deu origem a um estilo de construção internacional

CURRÍCULO
Nome: Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho
Nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 15 de dezembro de 1907
Morte: Rio de Janeiro (RJ), 5 de dezembro de 2012
Ocupação: Arquiteto e artista

A
cena se repetiu várias vezes na última década: quando alguém perguntava
ao centenário arquiteto sobre sua inspiração, ele se punha a desenhar
mulheres nuas. “A forma segue o feminino”, dizia Oscar Niemeyer, que
desafiou ao longo de toda a vida a tendência internacional por torres
fálicas e caixotões angulosos. Dessa maneira algo folclórica,
argumentava o “arquiteto mais importante do Brasil”, de acordo com
Andrea Casa Nova Maia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no que
parece ser um consenso quase universal, mesmo entre seus piores
detratores.Em 1934, quando pegou seu diploma de arquiteto, a
maior novidade era o chamado estilo internacional, que é fácil de
reconhecer: são as típicas torres corporativas, sem qualquer ornamento e
com janelas de vidro reflexivo. Niemeyer começou na profissão como
adepto do estilo: seu primeiro trabalho importante, o Palácio Gustavo
Capanema, projetado em 1939 e concluído em 1943 como sede do Ministério
da Educação e Saúde, parece à primeira vista uma típica caixa
modernista. Mas pequenas “heresias” entregam o autor: as caixas-d’água
são curvas, e um mural de azulejos decora o vão do prédio – decoração
era palavrão para os modernistas de então. Concluído no mesmo ano, a
pedido do então prefeito Juscelino Kubitschek, o Conjunto Arquitetônico
da Pampulha, em Belo Horizonte, revela de uma vez por todas as formas
curvilíneas que fariam sua fama para sempre.

As duas obras
lançaram o brasileiro ao estrelato internacional – que não pode ser
subestimado. Em 1939, ele projetou a sede da Organização das Nações
Unidas em Nova York, junto com um de seus inspiradores, o suíço Le
Corbusier. Por duas vezes, ele foi convidado a dar aulas em
universidades americanas, primeiro em Yale, em 1946, e depois em
Harvard, em 1953. Em ambas, seu visto de trabalho foi barrado por ser
abertamente comunista – e isso custaria ao Brasil seu exílio por quase
todo o período militar, amargamente instalado na capital que, em grande
parte, ele havia desenhado. “Niemeyer representa bem a ânsia de
progresso técnico e social, com reconhecimento mundial. Suas
contradições – pouco interesse pelo passado e pelas liberdades
individuais – retratam bem o Brasil”, afirma Pedro Paulo Funari, da
Unicamp. Até Niemeyer, a tendência no Brasil era imitar o que se passava
no exterior, às vezes de forma literal – concluído em 1939, o Edifício
Altino Arantes, em São Paulo, é uma quase cópia do Empire States, com um
terço do tamanho do original. Passou-se então a imitar Niemeyer.

E não só aqui: existe até um nome em inglês para a arquitetura que remete a ele: googie,
um estilo futurista que foi usado em cassinos de Las Vegas, em
aeroportos e até lava-rápidos nos anos 50 e 60. A arquitetura brasileira
acabou no desenho animado Os Jetsons, série na qual todos os
prédios pareciam ter sido transplantados de Brasília: “A arquitetura é
claramente inspirada em profissionais que trabalharam no estilo moderno
da metade do século 20, como John Lautner e Oscar Niemeyer”, escreveu o
especialista em ficção científica Matt Novak, da Fundação Smithsonian,
ao tratar do desenho animado. O estilo pode ter saído de moda, mas,
graças a Niemeyer, houve um dia em que o Brasil realmente foi o país do
futuro.

O BRASIL DE NIEMEYERAno: 1960
População: 70 070 457
População rural: 52%
Taxa de analfabetismo: 39,6%
Regime político: democracia (sem votos de analfabetos)
COMO SERIA SEM ELEA
arquitetura brasileira continuaria a ser baseada em clones em miniatura
de arranha-céus americanos. Brasília teria um aspecto convencional,
provavelmente tedioso e opressivo. No mundo inteiro, os anos 50 e 60
seriam, literalmente, muito mais quadrados.
ZUMBI DOS PALMARES – Em guerra contra a escravidão

Figura do líder assumiu proporções míticas

CURRÍCULO
Nome: Zumbi
Nascimento: Quilombo dos Palmares (AL), 1655
Morte: Serra Dois Irmãos (AL), 20 de novembro de 1695
Ocupação: Líder quilombola

Existe
uma razão por que a data de morte Zumbi dos Palmares tornou-se o Dia da
Consciência Negra. O Brasil teve vários abolicionistas, alguns deles
negros, como José do Patrocínio (1853-1905). Mas todos tinham algumas
características em comum: eram, brancos ou negros, respeitáveis senhores
nas suas elegantes casacas novecentistas, parte do sistema sustentado
pela escravidão, e defendiam uma reforma, não uma revolução. Patrocínio
até mesmo organizou uma “guarda negra”, formada por ex-escravos, para
atacar comícios republicanos. Zumbi não apenas não fazia parte disso
como viveu em guerra contra o sistema que sustentou o Brasil colonial e
imperial.Sobrinho do rei Ganga Zumba, Zumbi iniciou uma
insurreição contra o tio quando ele tentou um acordo de paz com os
portugueses, em 1678. Zumbi não queria viver como um subalterno nas
terras dos brancos, se é que eles cumpririam a promessa de não torná-los
escravos novamente. O antigo rei foi envenenado por um de seus
seguidores, e ele ascendeu ao trono, para passar mais de 20 anos em
guerra contra os portugueses. Resistiu até a fatídica tomada do quilombo
pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, em fevereiro de 1694. O líder
escapou e passaria quase dois anos rondando pela floresta com sua tropa,
até ser traído e cercado com seus últimos 20 soldados. Sua cabeça foi
exposta ao público para desmentir sua fama de imortal – “zumbi” quer
dizer “espírito” nas línguas bantu do sul da África.

Palmares era
um pedaço da África bantu transplantado para o Brasil. “Em plena
escravidão, Zumbi foi líder de uma comunidade livre e que acolhia
pessoas perseguidas, como judeus, muçulmanos, mulheres acusadas de
bruxaria e índios”, afirma Pedro Paulo Funari, da Unicamp. A população
geral dos Palmares pode ter chegado a 30 mil pessoas, em vilas e numa
aldeia central fortificada, defendida por armas de fogo. Quem mandava
eram os monarcas bantus, mantendo costumes ancestrais. E isso incluía a
escravidão: só quem chegava por seus próprios meios, fugido, era
considerado livre. Aqueles que fossem capturados em ataques contra
fazendas continuavam a ser escravos.

Isso talvez soe chocante, mas
seria anacrônico exigir de um líder africano do século 17 que fosse
contra a instituição da escravidão. Negros, brancos e índios
escravizavam-se mutuamente desde a Pré-História. E, afinal, Palmares
continuava a ser um refúgio para os perseguidos. “Com todas as
limitações da época, constitui um exemplo de convivência que pode nos
inspirar ainda hoje”, afirma Pedro Paulo Funari. E, em todo caso, é
recomendável uma leitura cuidadosa da história de Zumbi. Talvez ele
pertença mais ao domínio do mito do que da realidade. Tudo o que se sabe
sobre ele foi escrito por seus inimigos, e alguns historiadores nem
mesmo acham que ele fosse uma pessoa real. Jean Marcel Carvalho França –
que participou da eleição, mas não votou em Zumbi – afirma em seu livro
Três Vezes Zumbi que o nome provavelmente se referia a um
título, o general do quilombo, e não a uma única pessoa. O professor
Lincoln Secco, da USP, define Zumbi como uma “figura mítica da
resistência ao escravismo”. É assim, com tal sentido mítico, que o
grande guerreiro negro deve ser entendido.

O BRASIL DE ZUMBIAno: 1690
População: 242 000 (estimativa)
População rural: sem dados, mais de 90%
Taxa de analfabetismo: sem dados, mais de 90%
Regime político: colônia portuguesa
COMO SERIA SEM ELENão
haveria um símbolo rebelde para o movimento negro. Os militantes teriam
de se conformar com pacatos e europeizados abolicionistas do século 19.
Faz toda a diferença que tenha havido um legítimo rei e general
africano no Brasil.
MONTEIRO LOBATO – Tempestade intelectual

Em causas certas e erradas, ele mandou às favas o “homem cordial”

CURRÍCULO
Nome: José Bento Renato Monteiro Lobato
Nascimento: Taubaté (SP), 18 de abril de 1882
Morte: São Paulo (SP), 4 de julho de 1948
Ocupação: Escritor, editor, empresário

Nacionalista
fã dos Estados Unidos. Modernista que odiou a Semana de Arte Moderna.
Empresário sagaz que fundou a indústria editorial no país e morreu com
fama de comunista. Adepto inicial de teorias racistas, que depois
embarcou numa cruzada para salvar o homem do campo. Autor de livros
infantis que amava viver em guerra com os adultos. Esse foi Monteiro
Lobato – um brasileiro que podia estar errado, mas não podia ser
ignorado.Hoje, ele é lembrado como o “criador de uma
literatura infantil genuinamente brasileira, com cheiros, cores e
sabores das casas do interior do país”, na definição de Isabel Lustosa,
da Fundação Casa de Rui Barbosa. Mas seria uma injustiça limitar o
turbilhão intelectual que foi Monteiro Lobato aos seus personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Metade do que escreveu se destinava a adultos, e ele levava isso
ferrenhamente a sério: defendia suas ideias – que eram muitas, e nem
sempre boas – de forma sincera, cruel e virulenta. Em um país que preza a
conciliação, ele era a voz rebelde e ruidosa a discordar da maioria.
Para Pedro Paulo Funari, da Unicamp, foi “inspiração como intelectual
engajado”.

Lobato entrou no discurso público chutando a porta, em 1912, quando o jornal O Estado de S. Paulo
publicou seu artigo Velha Praga, no qual descrevia o caboclo, mestiço
de índio e português que habitava desde os tempos coloniais as zonas
rurais do Brasil como um “funesto parasita... inadaptável à
civilização”. Morando em uma fazenda em Taubaté, interior de São Paulo,
ele andava às turras com seus vizinhos caboclos, que insistiam em fazer
queimadas mesmo em época de secas, arruinando suas terras. Na véspera de
Natal daquele ano, o mesmo jornal lançou o conto Urupês – nome
para o orelha-de-pau, um fungo que cresce em madeira podre. Foi a
estreia nada simpática do Jeca Tatu, cuja preguiça seria a causa de
todos os males do país.

Em 1918, fundou a Monteiro Lobato &
Cia., primeira editora criada por um brasileiro, que lançou os pioneiros
best-sellers nativos. Lobato dizia que “livro é sobremesa, tem que ser
posto debaixo do nariz do freguês”. Com livros coloridos e ilustrados,
fez fortuna na década seguinte. O racismo anticaboclo foi abandonado nos
anos 20, quando leu a respeito da ancilostomose, o amarelão, doença que
causava o que ele julgava ser preguiça – o Jeca passou a ilustrar
cartilhas de conscientização dos órgãos de saúde. Lobato partiria para
outras brigas: desancou o modernismo ao criticar uma exposição de Anita
Malfatti, no artigo Paranoia ou Mistificação, acusando os
modernistas de colonizados. Na década seguinte, entrou em campanha para a
exploração do petróleo no Brasil pela iniciativa privada, acusando o
governo Vargas de “não perfurar e não deixar que se perfure”. Foi parar
na cadeia em 1941.

Anglófilo, viveu nos Estados Unidos entre 1927 e
1931 como adido comercial do governo, e não se importava em enfiar
personagens como Popeye no Sítio do Pica-Pau. Seu desgosto com o Estado
Novo o levou à esquerda, aproximando-se de Luís Carlos Prestes. Em seu
último livro, Zé Brasil (1947), criticou a estrutura fundiária e
as desigualdades sociais. O grande empreendedor morreria como
simpatizante do comunismo.

O BRASIL DE LOBATOAno: 1920
População: 30 635 605
População rural: 84%
Taxa de analfabetismo: 65%
Regime político: república sem sufrágio universal (votavam homens alfabetizados, acima de 21 anos)
COMO SERIA SEM ELEA
literatura infantil provavelmente ainda seria composta de traduções de
autores internacionais. A indústria editorial, dominada por
estrangeiros. O nacionalismo talvez ainda tivesse matizes românticas. A
polêmica feroz seria tida como coisa de estrangeiros.
FONTE: http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia

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